sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Reforma Política – Caminho para a transformação social

Por Rafael José Bernardi*

Se a vinda do Cristo tivesse transformado como mágica a face da terra, antecipando Ele mesmo o Reino prometido, sua estada neste mundo não teria significado outra coisa se não uma verdadeira separação entre divino e humano, elevando o “divino” à altura inalcançável e desconstituindo o “humano” da plena capacidade de promover as transformações necessárias.

Ao contrário, o ponto de partida de seu projeto reconhece-nos como divino-homem e divina-mulher e de seres limitados, passamos à seres transcendentais na perspectiva da construção do Reino.
Em outras palavras, nossas mãos, humanas que só, são as únicas capazes de efetivar o divino projeto sonhado por Jesus.

Esse projeto, ainda, não parte de qualquer lugar, mas se orienta na perspectiva daqueles e daquelas que sofrem, sobretudo, vitimados pela injustiça social (Lc 4, 18 – 19).

É preciso, portanto, estar atentos/as aos sinais dos tempos, identificando no momento presente onde estão os oprimidos, quem são seus opressores e que medidas tomar frente a esta realidade.

Felizmente, esse entendimento não é uma novidade, embora nunca deixe de ser uma boa nova.

Desde há muito tempo, as pastorais sociais e diversos movimentos populares têm feito esta leitura e se lançado na peleja pela reforma agrária e urbana, pela igualdade de gênero e de raça, por uma política de segurança baseada no respeito integral aos direitos humanos, pela democratização dos meios de comunicação, por trabalho digno, dentre outras reivindicações.

No entanto, no exato momento em que vivemos, uma reivindicação surge mais forte do que nunca e reúne em torno de si um rol extenso de movimentos e organizações, sendo uma das mais consensuais e urgentes desde a redemocratização do país: a Reforma Política.

O entendimento é de que sem alterar as regras de nosso sistema político, nenhum, ou quase nenhum avanço pela defesa e emancipação de nosso povo será possível.

O atual sistema político, herdado da ditadura civil-militar, concentra nas mãos dos poderosos as decisões mais fundamentais do país, como na Jerusalém de outrora.

Tal discussão tem ganhado tanta força que tornou-se impossível aos grandes meios de comunicação e ao próprio Congresso Nacional não se manifestar a respeito, o que já é uma vitória: rompemos a barreira do silêncio que nos é imposto.

É preciso, no entanto, redobrar o cuidado.

Todas as vezes que significamos uma ameaça às estruturas de morte, denunciando as falsas leis dos fariseus e do império, a resposta foi impiedosa.

No momento atual essa resposta é arquitetada pelos meios de comunicação e pelas perversas bancadas formadas no Congresso (fundamentalistas religiosos, ruralistas, empreiteiros, etc.) e se configura numa enorme ação contrarreforma, com ataques às bandeiras históricas das pastorais e movimentos sociais e, inclusive, com projetos de lei e emendas constitucionais que, embora denominados de reforma política, possuem conteúdo que endurecem ainda mais o atual sistema contra qualquer modificação tendente à torna-lo mais popular.

A fim de não nos perdermos podemos usar dois pontos básicos como direção.

O primeiro é dizer não ao financiamento privado de campanhas políticas por empresas, motivo que mais corrói nosso sistema político. Como bem se tem dito, na política empresa não faz doação, mas investimento, sendo ponto chave da corrupção no país, além de fazer prevalecer os interesses do mercado sobre os do povo.

O segundo diz respeito à quem vai promover esta reforma. Sobre isso é possível afirmar que assim como fé sem política e espiritualidade sem mística, é impossível conceber reforma política sem participação popular. O povo integrado à todos os processos de decisão de sua própria vida é o caminho da democracia para o Outro Mundo Possível, a Civilização do Amor, o Reino.

O fato é: ou ampliamos essa discussão, assumindo-a diariamente nas redes, nas comunidades e nos grupos de base, ou abriremos caminho para nossa derrota; ou marchamos firmes, rompendo o mar à nossa frente, ou o exército do sistema que historicamente nos oprime nos alcançará.

*Rafael José Bernardi é militante da Pastoral da Juventude na Diocese de Limeira/SP e representante da PJ junto à Secretaria Operativa Nacional do Plebiscito.

Via PJ.org.br

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