quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

A tradição, o Vaticano II e os Santos Padres

A Sagrada Tradição é a transmissão da Palavra de Deus. Esta transmissão é feita oficialmente pelos sucessores dos apóstolos, e não oficialmente por todos os que cultuam, ensinam e vivem a fé, tal como a Igreja a entende.

Certas idéias e costumes originam-se do processo da Tradição e se tornam meios para ela, alguns até mesmo por vários séculos. Mas um produto da Tradição constitui um elemento básico seu, apenas quando tal produto serviu para transmitir a fé numa forma invariável desde os primeiros séculos da Igreja. Exemplos de elementos básicos são a Bíblia (como um instrumento tangível usado na transmissão da fé), o Símbolo dos Apóstolos ou Credo, e as formas básicas da liturgia da Igreja.

Numa determinada época, um produto da Tradição pode exercer um papel especial na transmissão da fé. Os documentos dos concílios ecumênicos são disso os principais exemplos. Concílio Ecumênico é uma assembléia oficial de todos os bispos do mundo que estão em comunhão com o Papa, com a finalidade de tomar decisões. Os ensinamentos de um Concílio Ecumênico - produtos da Tradição no sentido estrito - desempenham uma função decisiva no processo da Tradição. Os documentos do Concílio de Trento, realizado no séc. XVI, desempenharam tal função. Assim também sucedeu com os documentos do Concílio Vaticano I, celebrado no séc. XIX.

Nos nossos dias, os documentos do Concílio Vaticano II estão exercendo o mesmo papel no processo da tradição. Conforme declarou o Papa Paulo VI numa alocução de 1966. "Devemos dar graças a Deus e ter confiança no futuro da Igreja, quando pensamos no Concílio: ele será o grande catecismo dos nossos tempos".

O Vaticano II fez o que a Igreja docente sempre tem feito: expressou o conteúdo imutável da revelação, traduzindo-o para formas de pensamento do povo de acordo com a cultura de hoje. Mas esta "tradução do conteúdo imutável" não é como que vestir notícias velhas com linguagem nova. Como afirmou o Vaticano II: "Esta Tradição, oriunda dos Apóstolos, progride na Igreja sob a assistência do Espírito Santo. Cresce, com efeito, a compreensão tanto das coisas como das palavras transmitidas... no decorrer dos séculos, a Igreja tende continuamente para a plenitude da verdade divina, até que se cumpram nela as palavras de Deus". (Dei Verbum, nº 8).

Pelo Vaticano II a Igreja deu ouvidos ao Espírito, empenhou-se na sua "tarefa de perscrutar os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho" (Constituição Pastoral Gaudium et Spes sobre a Igreja no Mundo Moderno, nº 4). Nem sempre é claro aonde o Espírito está nos conduzindo. Mas o terreno no qual nós, a Igreja, caminhamos adiante da nossa peregrinação é firme: o Evangelho de Cristo. Nesta etapa da nossa história, um de nossos instrumentos básicos de Tradição - de transmissão da fé - são os documentos do Vaticano II.

A Tradição é um processo inteiramente pessoal. A fé é transmitida de pessoa para pessoa. Papas e Bispos, sacerdotes e religiosos, teólogos e mestres transmitem a fé. Mas as pessoas mais envolvidas nesse processo são os pais e seus filhos. Filhos de pais chineses dificilmente aprendem um dialeto irlandês. E filhos de pais não-praticantes dificilmente aprendem uma fé profunda e vivencial. Assim, com relação à Tradição, guarde bem na memória as palavras do célebre sacerdote e educador inglês, Cônego Drinkwater: "Você educa até certo ponto... pelo que você diz, mais pelo que você faz e ainda mais pelo que você é; mas acima de tudo, pelas coisas que você ama".

Fonte: Editora Santuário / Veritatis Splendor

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